Som e ação ocorrem dentro do quadro visível — atores falam, objetos produzem ruídos. Oposto de off.
No corte, a dramaturgia de som e imagem se decide em uma fronteira fundamental: On significa que ouvimos o que vemos. O ator move os lábios, ouvimos sua voz. O carro atravessa o quadro, seu motor soa da mesma direção. Essa congruência de informação visual e acústica cria autenticidade — ou pelo menos a ilusão dela. No set, isso é trivial; no corte, torna-se uma decisão estratégica.
Na prática, distinguimos entre On verdadeiro — som gravado em sincronia com a imagem — e On sintetizado, que o designer de som adiciona posteriormente. Um ator fala seu texto no local de filmagem, a gravação está perfeitamente em sincronia: esse é o som On real. Mais tarde, percebemos que a qualidade é deficiente ou que preferimos outra tomada — agora inserimos outra voz por cima e chamamos isso de ADR (Automated Dialogue Replacement). A nova voz se encaixa precisamente na boca do ator, mas permanece construída. O espectador ainda vê On — os lábios se movem em sincronia com a palavra — mas não percebe que descartamos o original.
O oposto, Off, nos dá enorme liberdade dramatúrgica. Uma voz em off cria comentário, monólogo interior ou distância. Um barulho de rua soa, embora o carro não esteja no quadro. Essa divergência entre o visível e o ouvido permite camadas, subtexto, tensão — é a ferramenta do corte moderno. On, por outro lado, nos prende ao presente imediato, ao que está ali. Cria presença.
O desafio mais comum: uma cena foi filmada no set com som fraco. No corte, vemos movimentos claros de lábios, mas o diálogo gravado é quase inaudível ou cheio de ruído. Agora precisamos dublar a voz — e não podemos sair da sincronia, senão toda a cena parecerá errada, a suspensão da descrença se quebra. Esse é o preço da convenção On: a perfeição é visível, cada erro também. Com som Off, teríamos margem.