Inconsistência lógica na história — algo acontece sem explicação ou contradiz regras já estabelecidas. Falha no roteiro que o público percebe imediatamente.
Um furo de roteiro surge quando a história contada desmorona internamente — não dramaturgicamente, mas logicamente. O espectador fica pensando: "Espere aí, isso não faz sentido." Isso não é o mesmo que uma pergunta propositalmente aberta ou um mistério. Um furo de roteiro é um erro no roteiro que o autor deixou passar e que destrói a credibilidade do mundo.
Na prática, você percebe isso imediatamente ao ler ou durante a edição. Personagem A está no carro na cena 1, a cena 2 começa 20 segundos depois — mas a pessoa está subitamente do outro lado da cidade sem transporte explicado. Ou: A regra do mundo diz que magia só funciona sob a luz da lua, mas na cena 47 ela é usada ao meio-dia sem que isso seja abordado. Isso não é um risco narrativo, é negligência. Você pode consertar parcialmente no set (filmar rapidamente uma cena de transição, uma fala), mas muitas vezes você percebe tarde demais.
O perigo é: furos de roteiro são cumulativamente tóxicos. Um erro? O público te perdoa. Três ou quatro? O engajamento emocional diminui rapidamente. A maioria dos erros acontece na narrativa da exposição — é lá que as regras são estabelecidas e que devem valer depois. Ou na resolução, quando uma solução é escrita sob pressão de tempo que não é compatível com o conjunto de regras estabelecido.
Você pode fazer pouco a partir do set, mas como cinegrafista ou na edição: você vê inconsistências imediatamente. O personagem usa a jaqueta azul no take 1, vermelha no take 2 — isso é continuidade, não o mesmo que um furo de roteiro, mas sinaliza falta de controle. Se você perceber durante as filmagens que uma lógica estabelecida de cena para cena está sendo quebrada, aponte isso. O editor não pode fazer mágica depois.
Isso difere de uma questão não respondida (propositalmente misteriosa) ou um Deus ex machina (solução insatisfatória, mas logicamente consistente). Um furo de roteiro é a quebra das próprias regras do jogo — e o espectador da terceira fila percebe isso imediatamente.