Filmes mudos iniciais (1890–1910) sem corte, close-up ou sofisticação narrativa — pura documentação de cenas encenadas. Cinema pré-gramática, como Lumière e Méliès.
Os primeiros irmãos Lumière e seus contemporâneos filmavam o que a câmera via — sem rodeios, sem firulas dramatúrgicas. Uma locomotiva entra em cena, a câmera filma, a locomotiva sai de quadro. Pronto. Isso é cinema ingênuo: registro puro de movimento diante de uma câmera estacionária, geralmente com duração entre 40 e 60 segundos. Sem cortes, sem mudança de local na imagem, sem close-ups — a composição da imagem era o que o aparelho capturava, não o que o diretor construía. Ainda não havia gramática cinematográfica, porque ela ainda não era conhecida. Experimentava-se, documentava-se, maravilhava-se.
Na prática, isso significa que o cinegrafista era mais técnico do que criador. A cena se desenrolava diante da câmera como em um palco de teatro — frontal, em tempo real, sem cortes de montagem, que só mais tarde se tornariam uma ferramenta. Méliès rompeu esse princípio com seus efeitos especiais e mudanças de cena no mesmo plano, mas mesmo isso ainda não era montagem de corte no sentido posterior. Os atores muitas vezes não sabiam que estavam sendo filmados (em filmagens de Lumière em locais movimentados), ou atuavam visivelmente para a câmera como no teatro — rígidos, exagerados, à distância.
O que os primeiros pesquisadores de cinema chamaram mais tarde de cinema ingênuo foi simplesmente a falta de consciência cinematográfica: ainda não havia teoria de corte, de seleção de planos, de ritmo de montagem. A câmera era observadora, não narradora. Um trem chega — o espectador se assusta ou se fascina porque o movimento é real, não porque foi composto dramaturgicamente. Isso torna essas primeiras obras ainda hipnotizantes hoje: elas documentam uma época em que o cinema ainda não havia compreendido o que podia fazer.
Para os praticantes de hoje, o rótulo é mais historiográfico. Ele marca o momento anterior à invenção da montagem de corte, do plano geral e da composição dramática de planos — ou seja, tudo o que hoje conhecemos como linguagem cinematográfica. Somente com D.W. Griffith e os teóricos da montagem soviética surgiu a gramática propriamente dita. Até então, o cinema era ingênuo — inocente no melhor sentido, sem pretensões artísticas.