Convenção narrativa clássica americana — cortes invisíveis, motivação psicológica, estrutura de três atos. Referência industrial contra a qual todo cinema contemporâneo se posiciona.
Quem trabalha no set ou na sala de edição percebe imediatamente: Hollywood não é uma região cinematográfica, mas sim um conjunto de regras dramatúrgicas. Ele permeia cada cena que filmamos — quer saibamos disso ou não. Três atos, escalada clara de conflitos, a motivação psicológica de cada personagem tornada compreensível: essa é a gramática que funciona desde os anos 1930 e que, até hoje, forma a base da maioria das produções.
Os cortes invisíveis são a espinha dorsal do ofício. Não cortamos para mostrar o corte — cortamos para transportar uma ilusão sem falhas. O espectador segue a câmera, o olhar passa de um rosto para outro, sem sentir a montagem. Isso é aprendido, é ofício. Cada tamanho de plano, cada ponto de corte serve a essa transparência. Um videoclipe dos anos 90 que picota deliberadamente quebra esse código — mas mesmo assim, nos definimos contra Hollywood, não além dela.
O que muitos subestimam: Hollywood é também pensamento econômico. Três atos permitem três pontos de venda no marketing. A motivação psicológica torna os personagens relacionáveis — mais amplamente comercializáveis. Isso não é má intenção, mas lógica industrial. Um filme europeu de arte, que intencionalmente não explica a motivação de um personagem, sabe exatamente que está trabalhando contra essa convenção.
No set, isso significa concretamente: planejamos a câmera, a luz e a performance de forma que nada distraia — cada quadro serve à história. No documentário, justamente nos afastamos disso e permitimos o acaso, a quebra, o espaço. Na edição, escolhemos o ritmo e as transições de forma a construir a tensão continuamente. Até mesmo o chamado distanciamento — Godard, Lars von Trier — funciona como uma violação consciente dessas regras.
O mais importante: Hollywood não é um estilo, mas um pensamento estrutural. Não existe um visual de Hollywood — existe uma dramaturgia de Hollywood. Por isso, podemos filmar em Ultra-HD, usar câmeras Sony, dessaturar cores e ainda assim permanecer no pensamento de Hollywood. Ou podemos trabalhar com Mini-DV e granulação de 16mm e quebrá-lo completamente. A superfície técnica é intercambiável. A gramática invisível é aquilo contra o qual todos nós trabalhamos.