Contramovimento ao Hollywood e ao cinema de autor europeu — cinema político e decolonial da África, Ásia e América Latina. Teoria de Solanas/Getino (1969).
Quem esteve nos sets nos anos 1960 e 70 percebeu rapidamente: havia uma revolta contra as próprias imagens. Não apenas contra as fórmulas de Hollywood, mas contra toda a maneira ocidental de pensar o cinema. Cineastas na América Latina, África e Ásia começaram a inventar suas próprias gramáticas visuais — não como imitação da arte autoral europeia, mas como uma arma direta contra o colonialismo e o controle imperial das imagens. Solanas e Getino chamaram isso de "Tercer Cine" — o Terceiro Cinema — em 1969. Não era um gênero, mas uma postura política em relação ao próprio meio.
A consequência prática foi radical: a câmera tornou-se ferramenta de libertação. Filmaram com meios modestos, muitas vezes na clandestinidade, pois a mera existência de tais filmes era um ato de insubordinação. A montagem tornou-se uma forma de argumentação — não emocional, mas confrontadora. O corte não deveria fluir, mas rasgar. O som era político: mostraram rostos colonizados, mas não com a suavidade estética que o público ocidental esperava. A imagem deveria doer. Cineastas como Med Hondo (Mauritânia), Glauber Rocha (Brasil), Ousmane Sembène (Senegal) ou, mais tarde, Harun Farocki, recusaram sistematicamente a "beleza" como cumplicidade. Trabalharam com granulação, com rupturas, com intertítulos didáticos — tudo o que o cinema clássico desqualificava como "primitivo".
Na ilha de edição, isso se manifestou mais fortemente. Enquanto Hollywood e o cinema autoral europeu buscavam a continuidade na montagem, o Terceiro Cinema criava intencionalmente rupturas. Jump cuts não como recurso estilístico, mas como questão política. A montagem revelava a construção — o espectador não deveria esquecer que estava sendo manipulado, para entender exatamente isso: que a mídia dominante também é manipulação. Essa ideia não era acadêmica; era existencial para cineastas cujos países estavam sob controle direto ou indireto do Ocidente.
Hoje, o termo é historicamente carregado e, ao mesmo tempo, vivo. Não se encontra mais o "Terceiro Cinema" como um movimento coeso, mas a lógica persiste: todo projeto independente do Sul Global que se recusa a atender às expectativas ocidentais de "autenticidade" ou "exotismo" trabalha em seu espírito. A consequência técnica permanece: se você trabalha com um orçamento menor, equipamento mais simples, equipes locais e, ao mesmo tempo, se esquiva conscientemente da gramática visual do cinema hegemônico — você está fazendo Terceiro Cinema, quer conheça o nome ou não.