Acordo comercial de 1946 entre EUA e França que limitou cotas de filmes franceses e abriu mercados europeus a Hollywood. Ainda polêmico pela desregulamentação cultural.
Após a Segunda Guerra Mundial, a França precisava de empréstimos e acordos comerciais com os EUA — os Acordos Blum-Byrnes de 1946 foram o preço por isso. Léon Blum negociou pela França, James Byrnes por Washington. O problema central: Hollywood queria acesso irrestrito aos cinemas europeus. A França queria proteger sua indústria cinematográfica. O compromisso previa que os cinemas franceses tivessem que exibir filmes franceses ou europeus por pelo menos quatro semanas por trimestre — uma cota que soa bem no papel, mas que se tornou inócua na prática. Os estúdios de Hollywood inundaram os mercados com material de catálogo, e os cinemas de arte preferiam exibir um drama americano a uma obra francesa que trazia menos público.
Para produtores e distribuidores de ambos os lados, o acordo foi um ponto de virada: ele estabeleceu que o comércio de filmes agora se enquadrava no direito comercial geral — não na proteção cultural. Isso soa técnico, mas teve enormes consequências. As produtoras francesas tiveram que competir globalmente de repente. Ao mesmo tempo, o caminho se abriu para grandes produções americanas em Technicolor nos catálogos de distribuição europeus. Para um roteirista ou produtor francês nos anos 1950, isso significava: ou você faz filmes que possam competir, ou você faz filmes de arte para festivais e cinematecas.
As consequências culturais de longo prazo foram brutais. A Nouvelle Vague surgiu em parte como um movimento de oposição consciente a essa dominação de Hollywood — não apenas esteticamente, mas também como uma estratégia de defesa. Diretores como Godard e Rivette fizeram conscientemente filmes de baixo orçamento com atores desconhecidos para não estarem em competição direta com a Universal e a Warner. Ao mesmo tempo, escreveram para a Cahiers du Cinéma, estabelecendo assim bases teóricas que reavaliaram o Cinema Americano — uma resposta cultural à impotência econômica.
Hoje, os Acordos Blum-Byrnes estão fora de discussão, mas sua lógica perdura: serviços de streaming, canais de distribuição digital, coproduções globais — tudo funciona segundo princípios comerciais semelhantes. A diferença: enquanto a França pôde se defender na época (com cotas e festivais), a descentralização digital tornou o cinema nacional ainda mais invisível. Um profissional no set ou na edição percebe isso diariamente: o filme que você faz não compete mais contra o blockbuster de Hollywood por espaço nas telas — ele compete contra a Netflix na sala de estar de casa.