Espaço fílmico que contém múltiplas realidades ou linhas de tempo contraditórias simultaneamente — sonho acordado, locações sobrepostas. Conceito de Foucault, comum no cinema de arte e na ficção científica.
O conceito vem da teoria do espaço de Michel Foucault — mas para nós, cineastas, descreve menos uma abstração filosófica do que o fenômeno concreto de um lugar que abriga múltiplas realidades incoerentes simultaneamente. Não montagem, não efeito de corte: a heterotopia surge quando o próprio espaço se torna contraditório. Um apartamento que é sonho e presente ao mesmo tempo. Um edifício que espacialmente não pode se encaixar. Um lugar onde o tempo não flui linearmente, mas se sobrepõe — passado e presente existem na mesma tela.
Na prática, trabalha-se isso através da mise-en-scène: iluminação que parece vir de diferentes fontes e épocas. Arquitetura que se contradiz — um quarto cujas paredes são geometricamente impossíveis de se encaixar. Ou figurino: personagens em misturas anacrônicas que quebram a coerência espacial. Em David Lynch, vemos isso constantemente — o Red Room em Twin Peaks funciona assim. Não como truque de efeito, mas como decisão de design. O próprio espaço conta que a lógica normal não se aplica aqui.
Para o diretor de fotografia, isso significa: não criar uma orientação espacial clara. Iluminação que cria efeitos de profundidade contraditórios. Estratégias de foco que mantêm múltiplos planos em igualdade. Em Andrei Tarkovsky ou em trabalhos como Solaris, isso acontece através de um sutil entrelaçamento espacial — a câmera navega por espaços que não se encaixam de forma coesa, embora pareçam "reais".
A ficção científica usa a heterotopia como uma arma estrutural: uma estação espacial onde presente e memória se fundem espacialmente. Um bunker que abriga passado e futuro simultaneamente. Ou — mais diretamente — filmes como A Origem, onde sonhos dentro de sonhos ocorrem espacialmente, mas os lugares se condensam, se sobrepõem. Isso não é surrealismo, mas lógica espacial sob outras regras. A heterotopia é uma estratégia cinematográfica para transmitir estados de consciência ou rupturas temporais não através do corte, mas através do próprio espaço. Poderíamos dizer: o lugar se torna um ator psicológico.